Já deram o ar da graça

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Diga, quando você volta?



Jean-Louis Aubert

Veja há quantos dias , veja a quantas noites,
Veja há quanto tempo você partiu de novo.
Você me disse:"Desta vez, é a última viagem".
Para os nossos corações despedaçados é o último naufrágio.
Na primavera você vai ver, eu estarei de volta.
A primavera é agravável para se falar de amor.
Nós iremos juntos ver os jardins reflorescendo
E vamos passear pelas ruas de Paris!

Diga, quanto você vai voltar?
Diga ao menos se você sabe
Porque do tempo que passa
Se resgata pouco,
E do tempo perdido
Não se resgata nada!

A primavera se foi já faz um longo tempo
Estão secas as folhas mortas. O fogo queima os galhos
Ao ver Paris tão bela nesse final de outono.
De repente vem a preguiça e eu sonho e estremeço.
Eu me reviro na cama não consigo mais parar
vou, volto, viro, reviro e me esfrego.
Sua imagem me assombra. Eu falo baixinho.
Estou sofrendo de amor E sofrendo de saudade de você.

Eu ainda te amo muito.
Eu sempre vou te amar.
Eu só amo você.
Eu amo você com todo amor.

Se você não entende que precisa voltar
Vou ter nós dois nas minhas mais belas lembranças,
Vou seguir o meu caminho, o mundo me fascina.
Eu irei me aquecer junto a outro sol.
Eu não sou daquelas que morrem de desgosto,
Não tenho a virtude de mulher de marinheiro.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Interior

Que saudades eu tenho daquele pé de jaboticaba
dos dias mais extensos, dos finais de semana tediosos,
das madrugadas em claro, do divã, da bicicleta,
do café à tarde com Carol.
E eu pensei que abandonando essa vida do interior
pudesse ser mais livre. Mas a liberdade não está.
A liberdade não habita.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Aula de ginástica


Flexione o joelho, a alma e depois a economia.
Torça o pesadelo, levante os punhos e brade:
vasto mundo!
Pise levemente o chão, inspire:
arque-se para trás e
admire a miséria humana.
Solte o ar lentamente
e margeie a própria sombra.
Estique os braços, apoie-os sobre a névoa da saudade
Corra, seja, pois, ridículo.
Por fim, se jogue no abismo de sua inconsistência.

domingo, 29 de novembro de 2009

Saudade


Saudade (Chico César e Moska)


Saudade a lua brilha na lagoa
Saudade a luz que sobra da pessoa
Saudade igual farol engana o mar
Imita o sol
Saudade sal e dor que o vento traz

Saudade o som do tempo que ressoa
Saudade o céu cinzento a garôa
Saudade desigual
Nunca termina no final
Saudade eterno filme em cartaz

A casa da saudade é o vazio
O acaso da saudade fogo frio
Quem foge da saudade
Preso por um fio
se afoga em outras águas
Mas do mesmo rio.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Guto Lacaz

Não aspire aflições sem antes reparar
as asas que envolviam teus sonhos.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Prospecto


Study for Portrait II - Francis Bacon

Acabo de redigir um prospecto para a solidão.
De vinte laudas, contém conceitos de enciclopédia,
consultas aos manuais imaginários de Baudelaire
e resumo de anais do Congresso de Spleen.
Em anexo, figuras inspiradoras de Francis Bacon.
Palavras-chave: prospecto; solidão; spleen.
Keywords: prospect; loneliness; spleen.
Bibliografia:
Bandeira, Manuel. Pneumotórax. In: Estrela da Manhã e outros poemas. São Paulo, Círculo do Livro, 1978.
Baudelaire, Charles. As flores do mal. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Estrelas para mim


A noite trincada pela lua:
as casas se fecham,
as luzes se apagam.
Um corpo na amplidão
fora do fuso horário habitual
absorve a neblina etílica.
Um pensamento e nada mais
congela qualquer lucidez,
fixa as retinas no vazio.
A solidão espia a noite,
varre o escuro
com seu farol devastador.
A imagem do cruzeiro resplandece
mesmo nas cinzas das horas.